Ano XIII - Jornal N.º 26 - Março de 2005

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Os Pequenotes
Outros Temas

Outros Temas

DIÁRIO DE BORDO ?!

Navego desde 16 de Setembro. Estamos a 2 de Março. Estou sentada no convés da nau. Caminho para Sul, e agora encontro-me aqui no alto mar. Já não tenho enlatados, devido à falta de tempo para fazer comida, disponho, contudo, de água e alguns biscoitos. Admiro os astros. Ao longe, nuvens correm decididas. Eu procuro concentrar-me no programa de Língua Portuguesa “Aqui, sobre estas águas cor de azeite” e não desarmo na procura do velo de oiro.
 

          "Sobe, sobe, marujinho
          àquele mastro real,
          vê se vês metodologias do
          Português de Portugal.”
 

Sinto uma aragem fria. Não me retiro apesar disso. Agarro-me às folhas do programa e releio as notas colocadas à margem.

          ”Alvissaras, capitão
          Meu capitão general!
          Receitas, não vejo não
          No reino de Portugal!"
 

Subitamente “Uivam os ventos” procuro compreender o que se passa. Olho em volta “Cercaram-me as ondas que grandes son”. Volto a olhar em volta, gaivotas, vindas de todos os lados voam para Sul. Escurece. Passam, passam, mas sinto sombras. “Cercam-me as ondas que grandes son”. Penso em recolher-me “Mau tempo, velas rizadas”. Enrolo as velas e temo o pior, relembro a Hidra, Cila e Caribde. “O vapor treme”. Perco o rato/remo. Procuro manter-me calma, qual Ulisses ou Penélope nesta odisseia. Não sei bem! Alguém grita: Fogo! Estou na aula, aproveito e explico o que é uma frase. Socorro! Penso em mandar um S.O.S. mas quem arriscaria salvar uma professora que imprudente se afastou da costa à noite? “Mas cautela, Óh pescador”.
Continuo a aula, estamos a brincar com as palavras para compreendermos o que é um texto. Texto, particípio passado do verbo tecer, simples e lúdico, como se fosse tecido ou eu estivesse a fazer ponto cruz – lama/mala; saca/casa; cama/maca - “Cercaram-me as ondas que grandes son” e “o meu beliche é tal qual o bercinho” e vêm-me à memória dois aforismos que aprendi a propósito das actividades do Dia Mundial do Mar, numa das Escolas por onde passei - Quando o mar está calmo qualquer um pode ir ao leme, e o outro: Se vais à guerra reza uma vez, se vais ao Mar reza duas, se vais casar reza três e acrescento, para mim, Se vais ser professor reza quatro. Antes procurara explicar-lhes a exclamação de alegria proferida pelos dez mil gregos comandados por Xenofonte quando viram o mar: Thálassa! Thálassa! Mas, as palavras portuguesas com este radical eram apenas curiosidades raras para o vocabulário deles.
Parece-me ver fogo outra vez, Fogo-de-Santelmo? “Cercaram-me as ondas que grandes son” Penso no Kursk. Fecho os olhos. Um bilhete à família? Estou confusa. Ah, recuperei o meu remo/rato. ”Das aves passam as sombras” Talvez as gaivotas estejam a voltar ao mar! Vai clareando pouco a pouco. Amanheceu. Desprendo as velas. “Fiquei olhando, as sombras não, mas a memória delas, das sombras não, mas de passarem aves”, “Passa ave, passa, e ensina-me a passar” Sinto ainda um eco interior “Ao meu coração um peso de ferro”, “Cercaram-me as ondas que grandes son” O susto passou. Acalmaram vento e mar, posso sossegar, embora não tenha conseguido corrigir os testes todos. Não faz mal, farei outra tentativa mais tarde. Ainda tenho que seleccionar artigos dos alunos para o jornal. Fiquei de os entregar... É manhã! Preparo-me para enfrentar a maresia beirã, (Que geada! Tudo branco após mais uma noite em branco!). Entro na sala de aula e recomeço qual Sísifo “Olá! Bom dia a todos!”

Maria Emília Nave