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Outros Temas
DIÁRIO DE BORDO ?!
Navego desde 16 de Setembro. Estamos a 2 de
Março. Estou sentada no convés da nau. Caminho para Sul, e agora
encontro-me aqui no alto mar. Já não tenho enlatados, devido à falta de
tempo para fazer comida, disponho, contudo, de água e alguns biscoitos.
Admiro os astros. Ao longe, nuvens correm decididas. Eu procuro
concentrar-me no programa de Língua Portuguesa “Aqui, sobre estas águas
cor de azeite” e não desarmo na procura do velo de oiro.
"Sobe, sobe, marujinho
àquele mastro real,
vê se vês metodologias do
Português de Portugal.”
Sinto uma aragem fria. Não me retiro apesar
disso. Agarro-me às folhas do programa e releio as notas colocadas à
margem.
”Alvissaras, capitão
Meu capitão general!
Receitas, não vejo não
No reino de Portugal!"
Subitamente “Uivam os ventos” procuro
compreender o que se passa. Olho em volta “Cercaram-me as ondas que
grandes son”. Volto a olhar em volta, gaivotas, vindas de todos os lados
voam para Sul. Escurece. Passam, passam, mas sinto sombras. “Cercam-me
as ondas que grandes son”. Penso em recolher-me “Mau tempo, velas
rizadas”. Enrolo as velas e temo o pior, relembro a Hidra, Cila e
Caribde. “O vapor treme”. Perco o rato/remo. Procuro manter-me calma,
qual Ulisses ou Penélope nesta odisseia. Não sei bem! Alguém grita:
Fogo! Estou na aula, aproveito e explico o que é uma frase. Socorro!
Penso em mandar um S.O.S. mas quem arriscaria salvar uma professora que
imprudente se afastou da costa à noite? “Mas cautela, Óh pescador”.
Continuo a aula, estamos a brincar com as palavras para compreendermos o
que é um texto. Texto, particípio passado do verbo tecer, simples e
lúdico, como se fosse tecido ou eu estivesse a fazer ponto cruz –
lama/mala; saca/casa; cama/maca - “Cercaram-me as ondas que grandes son”
e “o meu beliche é tal qual o bercinho” e vêm-me à memória dois
aforismos que aprendi a propósito das actividades do Dia Mundial do Mar,
numa das Escolas por onde passei - Quando o mar está calmo qualquer um
pode ir ao leme, e o outro: Se vais à guerra reza uma vez, se vais ao
Mar reza duas, se vais casar reza três e acrescento, para mim, Se vais
ser professor reza quatro. Antes procurara explicar-lhes a exclamação de
alegria proferida pelos dez mil gregos comandados por Xenofonte quando
viram o mar: Thálassa! Thálassa! Mas, as palavras portuguesas com este
radical eram apenas curiosidades raras para o vocabulário deles.
Parece-me ver fogo outra vez, Fogo-de-Santelmo? “Cercaram-me as ondas
que grandes son” Penso no Kursk. Fecho os olhos. Um bilhete à família?
Estou confusa. Ah, recuperei o meu remo/rato. ”Das aves passam as
sombras” Talvez as gaivotas estejam a voltar ao mar! Vai clareando pouco
a pouco. Amanheceu. Desprendo as velas. “Fiquei olhando, as sombras não,
mas a memória delas, das sombras não, mas de passarem aves”, “Passa ave,
passa, e ensina-me a passar” Sinto ainda um eco interior “Ao meu coração
um peso de ferro”, “Cercaram-me as ondas que grandes son” O susto
passou. Acalmaram vento e mar, posso sossegar, embora não tenha
conseguido corrigir os testes todos. Não faz mal, farei outra tentativa
mais tarde. Ainda tenho que seleccionar artigos dos alunos para o
jornal. Fiquei de os entregar... É manhã! Preparo-me para enfrentar a
maresia beirã, (Que geada! Tudo branco após mais uma noite em branco!).
Entro na sala de aula e recomeço qual Sísifo “Olá! Bom dia a todos!”
Maria Emília Nave
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