Ano XIII - Jornal N.º 26 - Março de 2005

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Opinião

A ESCOLA E A

TRANSMISSÃO DE VALORES

O tempo que nos tocou viver, caracteriza-se pela flutuação de valores e pelo aparecimento de novos referentes. Como refere Ramiro Marques, “Se não aprenderem na escola, onde é que os alunos vão aprender que a solução para os conflitos reside apenas em continuar a dialogar, em manter a negociação, em abrir as portas para as cedências tendo como fim último uma maior justiça para todos?” Por tudo isto, é necessário proceder-se a uma transmissão de valores e impõe-se um processo educativo da realização e desenvolvimento pessoal, de autonomia, do espírito crítico, de uma consciência individual face aos valores colectivos. Porque os valores não são absolutos, há que procurar em cada caso a concordância prática dos valores fundamentais.
A escola é o lugar onde se aprende a ler, a escrever e a contar, mas é também o lugar onde se aprende a ser autónomo, a conviver, a respeitar os outros e as normas de convivência internas. No entanto, estes valores de respeito pelos outros e pelas normas de convivência apenas poderão ser levados à prática se houver justiça e equidade no ambiente escolar e se a escola não reproduzir ou agravar a injustiça e a desigualdade. É fundamental que haja respeito por si e pelos outros. Por isso, a salvaguarda dos direitos quer individuais, quer sociais é tão importante desde os bancos da escola.
Uma nova escola depende de todos nós; uma escola em que as pessoas são tanto ou mais importantes que os conteúdos; uma escola aberta à comunidade envolvente e à sociedade do tempo em que vivemos, no limiar do século XXI. A educação deve ser um processo transaccional que pretende atingir simultaneamente dois objectivos: a competência do aluno (“fazê-lo bem”) e a educação para os valores (“fazer o bem”).
Como professores, estamos a contribuir para a sociedade do futuro, cabendo-nos não só a transmissão de saberes mas de valores e atitudes. Também nós, professores, teremos de nos adaptar à mudança dinâmica através de uma formação permanente. Os valores não podem ser transmitidos por máquinas de ensinar. Todos nós, teremos que nos adaptar às mudanças progressivas que se vão sucedendo, para assim acompanharmos o tempo que nos tocou viver e, porque é, hoje, necessário aprender ao longo de toda a vida.
O novo paradigma para a educação do próximo milénio tenderá mais para preparar para o futuro, que para o formal - aprender a aprender, com liberdade e responsabilidade, parece ser o novo desafio. Recordemos o conhecido relatório Jacques Delors, “A Educação: um tesouro a descobrir”, no qual se consideram como os quatro pilares fundamentais da educação: “aprender a conhecer”, “aprender a fazer”, “aprender a conviver” e “aprender a ser”.
Hoje em dia, os jovens encontram-se expostos a uma incrível variedade de valores e modos de vida, o que tende a fomentar o desenvolvimento de um pensamento relativista. Por outro lado, nunca como agora, os pais se preocuparam tanto por “investir” nos seus filhos procurando dotá-los de todos aqueles recursos que esta sociedade, tremendamente mutante e competitiva, lhes exige. A um bom número de pais preocupa-os fundamentalmente, o nível de conhecimentos científicos adquiridos pelos seus filhos, mas não tanto o grau de aquisição de valores éticos como: respeito, honestidade, solidariedade, justiça, tolerância, convivência, etc. É, sem dúvida, através da família, que se tem a primeira imagem do mundo, é nela que se colhem princípios, se adoptam modelos, se elaboram as referências marcantes da personalidade.
No entanto, sabemos que desgraçadamente, hoje, o jovem apenas vê, durante breves momentos (à noite, depois de um árduo dia de trabalho), os pais pelo que esse papel de inculcamento de valores morais se acha bastante desviado da família. E, porque as famílias, nos nossos dias, têm sérias dificuldades em acompanhar regularmente a formação do jovem, em dialogar com ele, é pois à escola, e a nós professores, como responsáveis directos da educação, que compete facilitar o exercício de um pensamento crítico, a realização de escolhas fundamentadas e a interiorização de valores cívicos e morais. A escola surge, pois, como complemento da família. É a ela, que cabe a tarefa de orientar o jovem na interiorização de ideais de justiça social, de respeito pelos outros, de liberdade, de tolerância na convivência diária. É, pois, a escola que vai ajudar a moldar as consciências dos jovens para que adoptem atitudes pautadas por princípios de boa convivência e de intercompreensão, criando nos jovens capacidade de relações interpessoais que, no futuro, irão necessitar para (con)viver. Os jovens têm que ser ensinados a fazer escolhas norteadas pela ética, e a aplicar critérios morais às relações sociais. Deste modo, caberá à escola um papel importante na formação integral do Homem do amanhã, na sua dimensão física e moral, na sua capacidade de construir uma sociedade formada por cidadãos livres, responsáveis e justos.

Maria Emília Nave