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Opinião
A ESCOLA E A
TRANSMISSÃO DE VALORES
O tempo que nos tocou viver, caracteriza-se
pela flutuação de valores e pelo aparecimento de novos referentes. Como
refere Ramiro Marques, “Se não aprenderem na escola, onde é que os
alunos vão aprender que a solução para os conflitos reside apenas em
continuar a dialogar, em manter a negociação, em abrir as portas para as
cedências tendo como fim último uma maior justiça para todos?” Por tudo
isto, é necessário proceder-se a uma transmissão de valores e impõe-se
um processo educativo da realização e desenvolvimento pessoal, de
autonomia, do espírito crítico, de uma consciência individual face aos
valores colectivos. Porque os valores não são absolutos, há que procurar
em cada caso a concordância prática dos valores fundamentais.
A escola é o lugar onde se aprende a ler, a escrever e a contar, mas é
também o lugar onde se aprende a ser autónomo, a conviver, a respeitar
os outros e as normas de convivência internas. No entanto, estes valores
de respeito pelos outros e pelas normas de convivência apenas poderão
ser levados à prática se houver justiça e equidade no ambiente escolar e
se a escola não reproduzir ou agravar a injustiça e a desigualdade. É
fundamental que haja respeito por si e pelos outros. Por isso, a
salvaguarda dos direitos quer individuais, quer sociais é tão importante
desde os bancos da escola.
Uma nova escola depende de todos nós; uma escola em que as pessoas são
tanto ou mais importantes que os conteúdos; uma escola aberta à
comunidade envolvente e à sociedade do tempo em que vivemos, no limiar
do século XXI. A educação deve ser um processo transaccional que
pretende atingir simultaneamente dois objectivos: a competência do aluno
(“fazê-lo bem”) e a educação para os valores (“fazer o bem”).
Como professores, estamos a contribuir para a sociedade do futuro,
cabendo-nos não só a transmissão de saberes mas de valores e atitudes.
Também nós, professores, teremos de nos adaptar à mudança dinâmica
através de uma formação permanente. Os valores não podem ser
transmitidos por máquinas de ensinar. Todos nós, teremos que nos adaptar
às mudanças progressivas que se vão sucedendo, para assim acompanharmos
o tempo que nos tocou viver e, porque é, hoje, necessário aprender ao
longo de toda a vida.
O novo paradigma para a educação do próximo milénio tenderá mais para
preparar para o futuro, que para o formal - aprender a aprender, com
liberdade e responsabilidade, parece ser o novo desafio. Recordemos o
conhecido relatório Jacques Delors, “A Educação: um tesouro a
descobrir”, no qual se consideram como os quatro pilares fundamentais da
educação: “aprender a conhecer”, “aprender a fazer”, “aprender a
conviver” e “aprender a ser”.
Hoje em dia, os jovens encontram-se expostos a uma incrível variedade de
valores e modos de vida, o que tende a fomentar o desenvolvimento de um
pensamento relativista. Por outro lado, nunca como agora, os pais se
preocuparam tanto por “investir” nos seus filhos procurando dotá-los de
todos aqueles recursos que esta sociedade, tremendamente mutante e
competitiva, lhes exige. A um bom número de pais preocupa-os
fundamentalmente, o nível de conhecimentos científicos adquiridos pelos
seus filhos, mas não tanto o grau de aquisição de valores éticos como:
respeito, honestidade, solidariedade, justiça, tolerância, convivência,
etc. É, sem dúvida, através da família, que se tem a primeira imagem do
mundo, é nela que se colhem princípios, se adoptam modelos, se elaboram
as referências marcantes da personalidade.
No entanto, sabemos que desgraçadamente, hoje, o jovem apenas vê,
durante breves momentos (à noite, depois de um árduo dia de trabalho),
os pais pelo que esse papel de inculcamento de valores morais se acha
bastante desviado da família. E, porque as famílias, nos nossos dias,
têm sérias dificuldades em acompanhar regularmente a formação do jovem,
em dialogar com ele, é pois à escola, e a nós professores, como
responsáveis directos da educação, que compete facilitar o exercício de
um pensamento crítico, a realização de escolhas fundamentadas e a
interiorização de valores cívicos e morais. A escola surge, pois, como
complemento da família. É a ela, que cabe a tarefa de orientar o jovem
na interiorização de ideais de justiça social, de respeito pelos outros,
de liberdade, de tolerância na convivência diária. É, pois, a escola que
vai ajudar a moldar as consciências dos jovens para que adoptem atitudes
pautadas por princípios de boa convivência e de intercompreensão,
criando nos jovens capacidade de relações interpessoais que, no futuro,
irão necessitar para (con)viver. Os jovens têm que ser ensinados a fazer
escolhas norteadas pela ética, e a aplicar critérios morais às relações
sociais. Deste modo, caberá à escola um papel importante na formação
integral do Homem do amanhã, na sua dimensão física e moral, na sua
capacidade de construir uma sociedade formada por cidadãos livres,
responsáveis e justos.
Maria Emília Nave |