Ano XIII - Jornal N.º 26 - Março de 2005

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Os Pequenotes
Outros Temas

Outros Temas

TRANGALHADANÇAS
EMMOUCHADO NO CORTELHO

- Bom dia Jaquim.
- Bom dia Fecisco. Que dizes à vida?
- Olha, digo que com este barbeiro nam m’acolho a andar. Trago as orelhas escairadas e os dedos cheios de gaivas.
- Pous é, está um tempo do dianho: frio de rachar, as chorças encadornadas, ácabanissos que nam chove e a terra está uma uxa.
- Pous tá home! Nam se escarapenta nada: as couves, os nabos nam têm cherume nenhum!
- Está mau pra todos, pró gado e pra nós. Atam tu nam ouviste dezer nada do Tonho Carpinteiro?
- Nam me digas que le deu o trangolomango!
- Nam, mas acais! Vinha da venda com uma grande berzundela e em vez de ir pra casa, foi esvaqueirar-se no cortelho. Nisto derronchou-se a parede e um manjolo deu-le cabo dum artelho e dumas costelas.
- Atam agora é que o trabalho nam le sorde nada a esse lombo-duvas!
- O fedór da mulher que ia enchabernear a auga é que deu cum ele emmouchado a um canto.
- Jasus! Virge Maria! E logo essa espanta-milhanos que nam é de arricer os dentes!
- Pous! A do Manel da Praça, que é uma calhondreira, disse que a outra le pôs todos os pitéfes, que le chamou gonilhas e que até le chegou cum verjoeiro no lombo. E o trangalhadanças do Tonho nam teve outro remédio senam aug(u)entar, Agora lá está emmouchadelho, mas nam se atreve a dar à tramela.
- Pous, aquela gente nam tem acareio nenhum! E a ele nam lé mal feto! Quando a cabeça nam tem juízo o corpo é que as paga. Agora que s’aug(u)ente!
 

Perguntará o leitor o que significa este texto e porque está ele publicado neste jornal. É muito simples. A linguagem que cada falante utiliza diz muito sobre a sua educação, o seu meio social, a sua idade, a sua cultura...
Este texto, baseado no capítulo XXII – Curiosidades de linguagem popular usadas na freguesia de Proença-a-Nova – do livro “Concelho de Proença-a-Nova” do Padre Manuel Alves Catarino, pretende mostrar que quando o povo não tem acesso aos livros, inventa palavras por necessidade ou extravagância e modifica outras por supressão, aumento ou troca de letras.
Hoje, felizmente, a escolaridade mínima já é obrigatória, temos ricas bibliotecas e por isso deveria ser mais fácil falar bem. No entanto, na escola, que deveria ser por excelência um sítio de bem falar, continuamos a ouvir nos recreios, no bar, na cantina e por vezes até nas salas de aula, palavrões vociferados bem alto como se conferissem um estatuto superior a quem os profere. Esta situação é, quanto a mim, inadmissível e proponho que haja uma acção concertada de todos os agentes educativos no sentido de sensibilizar os alunos para a importância de cuidar a linguagem que utilizam, pelo menos dentro do recinto escolar. De certeza que ganhávamos todos com isso.

Sobre este assunto, eis a opinião de alguns alunos.

“Eu acho que a linguagem usada nas escolas é inadequada para este meio. Não se fala correctamente a nível da gramática portuguesa e até a nível de linguagem social, dizendo-se muitas palavras porcas que chocam muitas pessoas.”

“Hoje em dia os jovens empregam quase sempre asneiras ao falar. A influência dos amigos que falam mal e o facto de quererem participar num grupo e serem iguais aos elementos que já lá estão, fá-los ser aquilo que não são, apenas por acharem que assim são mais bem aceites.”

“Embora alguns jovens se moderem nas salas de aula, muitos têm comportamentos extremamente selvagens. Fora das salas de aula, em locais onde não existe ninguém para os repreender, os jovens dizem asneira sobre asneira nas frases. E quando os repreendem, fingem que não ouvem e continuam a falar igual.”

“O calão utilizado não é muito mau, mas com asneiras à mistura não se suporta.”

“Por vezes certos professores também dizem asneiras nas aulas. São uma pequena minoria, mas existem.”

“Eu até acho bem que se digam asneiras, mas apenas em momentos em que seja realmente preciso.”

“Eu acho que a linguagem utilizada hoje em dia numa escola é um pouco violenta, mas como os alunos já estão habituados com ela não notam nada.”

“Eu acho que não devíamos dizer asneiras, mas quando estamos nervosos ou quando achamos que alguma coisa é uma seca, vêm-nos logo essas “palavras” à boca.”

“A linguagem dos professores é um pouco mais cuidada, mas às vezes utilizam algumas expressões nossas como: “isto é bué fixe”, “podem bazar”...”

“Os alunos de hoje costumam ter uma linguagem calão e não têm tema de conversa. Na escola há vários sítios e a linguagem não varia de sítio para sítio, costumam empregar o calão em todo o lado, até na sala de aula. Eu acho que a linguagem utilizada pelos alunos é moderna e boa.”

“ Na minha opinião, os alunos quando estão no recreio com os amigos falam como querem.”

Trabalho realizado pelos alunos do 8º C e pela professora de Língua Portuguesa Olívia Cardoso