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Outros Temas
TRANGALHADANÇAS
EMMOUCHADO NO CORTELHO
- Bom dia Jaquim.
- Bom dia Fecisco. Que dizes à vida?
- Olha, digo que com este barbeiro nam m’acolho a andar. Trago as
orelhas escairadas e os dedos cheios de gaivas.
- Pous é, está um tempo do dianho: frio de rachar, as chorças
encadornadas, ácabanissos que nam chove e a terra está uma uxa.
- Pous tá home! Nam se escarapenta nada: as couves, os nabos nam têm
cherume nenhum!
- Está mau pra todos, pró gado e pra nós. Atam tu nam ouviste dezer nada
do Tonho Carpinteiro?
- Nam me digas que le deu o trangolomango!
- Nam, mas acais! Vinha da venda com uma grande berzundela e em vez de
ir pra casa, foi esvaqueirar-se no cortelho. Nisto derronchou-se a
parede e um manjolo deu-le cabo dum artelho e dumas costelas.
- Atam agora é que o trabalho nam le sorde nada a esse lombo-duvas!
- O fedór da mulher que ia enchabernear a auga é que deu cum ele
emmouchado a um canto.
- Jasus! Virge Maria! E logo essa espanta-milhanos que nam é de arricer
os dentes!
- Pous! A do Manel da Praça, que é uma calhondreira, disse que a outra
le pôs todos os pitéfes, que le chamou gonilhas e que até le chegou cum
verjoeiro no lombo. E o trangalhadanças do Tonho nam teve outro remédio
senam aug(u)entar, Agora lá está emmouchadelho, mas nam se atreve a dar
à tramela.
- Pous, aquela gente nam tem acareio nenhum! E a ele nam lé mal feto!
Quando a cabeça nam tem juízo o corpo é que as paga. Agora que s’aug(u)ente!
Perguntará o leitor o que significa este
texto e porque está ele publicado neste jornal. É muito simples. A
linguagem que cada falante utiliza diz muito sobre a sua educação, o seu
meio social, a sua idade, a sua cultura...
Este texto, baseado no capítulo XXII – Curiosidades de linguagem popular
usadas na freguesia de Proença-a-Nova – do livro “Concelho de
Proença-a-Nova” do Padre Manuel Alves Catarino, pretende mostrar que
quando o povo não tem acesso aos livros, inventa palavras por
necessidade ou extravagância e modifica outras por supressão, aumento ou
troca de letras.
Hoje, felizmente, a escolaridade mínima já é obrigatória, temos ricas
bibliotecas e por isso deveria ser mais fácil falar bem. No entanto, na
escola, que deveria ser por excelência um sítio de bem falar,
continuamos a ouvir nos recreios, no bar, na cantina e por vezes até nas
salas de aula, palavrões vociferados bem alto como se conferissem um
estatuto superior a quem os profere. Esta situação é, quanto a mim,
inadmissível e proponho que haja uma acção concertada de todos os
agentes educativos no sentido de sensibilizar os alunos para a
importância de cuidar a linguagem que utilizam, pelo menos dentro do
recinto escolar. De certeza que ganhávamos todos com isso.
Sobre este assunto, eis a opinião de alguns alunos.
“Eu acho que a linguagem usada nas escolas é inadequada para este meio.
Não se fala correctamente a nível da gramática portuguesa e até a nível
de linguagem social, dizendo-se muitas palavras porcas que chocam muitas
pessoas.”
“Hoje em dia os jovens empregam quase sempre asneiras ao falar. A
influência dos amigos que falam mal e o facto de quererem participar num
grupo e serem iguais aos elementos que já lá estão, fá-los ser aquilo
que não são, apenas por acharem que assim são mais bem aceites.”
“Embora alguns jovens se moderem nas salas de aula, muitos têm
comportamentos extremamente selvagens. Fora das salas de aula, em locais
onde não existe ninguém para os repreender, os jovens dizem asneira
sobre asneira nas frases. E quando os repreendem, fingem que não ouvem e
continuam a falar igual.”
“O calão utilizado não é muito mau, mas com asneiras à mistura não se
suporta.”
“Por vezes certos professores também dizem asneiras nas aulas. São uma
pequena minoria, mas existem.”
“Eu até acho bem que se digam asneiras, mas apenas em momentos em que
seja realmente preciso.”
“Eu acho que a linguagem utilizada hoje em dia numa escola é um pouco
violenta, mas como os alunos já estão habituados com ela não notam
nada.”
“Eu acho que não devíamos dizer asneiras, mas quando estamos nervosos ou
quando achamos que alguma coisa é uma seca, vêm-nos logo essas
“palavras” à boca.”
“A linguagem dos professores é um pouco mais cuidada, mas às vezes
utilizam algumas expressões nossas como: “isto é bué fixe”, “podem
bazar”...”
“Os alunos de hoje costumam ter uma linguagem calão e não têm tema de
conversa. Na escola há vários sítios e a linguagem não varia de sítio
para sítio, costumam empregar o calão em todo o lado, até na sala de
aula. Eu acho que a linguagem utilizada pelos alunos é moderna e boa.”
“ Na minha opinião, os alunos quando estão no recreio com os amigos
falam como querem.”
Trabalho realizado pelos alunos do 8º C e pela professora de Língua
Portuguesa Olívia Cardoso |