Ano XII - Jornal N.º 24 - Junho de 2004

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Área - Escola

Entrevista aos bombeiros de Proença-a-Nova, no âmbito
da Área-Escola de acordo com o tema escolhido pelo 10.º A

Entrevista feita ao Comandante Luís Laia

1. Quais as áreas mais devastadas e afectadas pelos incêndios?

Alvito da Beira; Proença-a-Nova; Sobreira Formosa; Montes da Senhora e Freguesia de S. Pedro. (este último no fogo de Mação).

2. Como justificar uma certa desorganização no combate? Ou seria falta de meios?

Houve ambas as coisas. Tanto desorganização como falta de meios.

Logo na primeira intervenção verificou-se falta de meios porque a corporação de bombeiros de Proença-a-Nova esteve desde as 13:15h do primeiro dia, até às 16:00h do dia seguinte, a trabalhar completamente sozinha sem terem e/ou poderem ter que comer ou beber devido ao trabalho. Estiveram sozinhos em 12 freguesias com 4 frentes de fogo.

Depois houve ainda uma descoordenação por parte dos bombeiros de fora porque, quando são enviados das cidades para o campo não sabem o que fazer, porque estão habituados a trabalhar noutro tipo de incêndios e não em incêndios como os que vieram combater.

Desta forma, vinham dar ordens contrárias aos bombeiros que conheciam o terreno e “sabiam” como extinguir o fogo. Eram, pois as instruções de alguém que sabe do assunto, e ao mesmo tempo, outras instruções de bombeiros habituados a combater outro tipo de fogo.

3. Qual o número de bombeiros ou corporações envolvidas ao combate do fogo?

Aproximadamente 400 bombeiros e depois havia ainda os militares e o pessoal do INEM que ajudou bastante. Uma curiosidade aqui apontada foi que vieram várias colunas de bombeiros de fora, tais como colunas de Lisboa, Coimbra, Santarém, Bragança e Vila Real... curioso que as corporações de Lisboa demoraram cerca de 12 horas a chegar e por exemplo as corporações de Vila Real, que é uma distância muito maior, demoraram metade do tempo, isto é, 6 horas.

Como pode isto acontecer? Foi a pergunta aqui colocada!

4. Envolvimento da população (havia muitos populares prontos a ajudar?)

Havia algumas pessoas que até ajudavam bastante, mais as pessoas da serra. A população de Sobreira Formosa e dos Montes da Senhora também ajudou muito.

Outra coisa que aconteceu foi que enquanto os bombeiros não chegavam as pessoas iam ajudando e fazendo o que podiam, mas quando os bombeiros chegavam, a maioria da população abandonava o que estava a fazer e deixavam os bombeiros a trabalhar praticamente sozinhos.

5. Considera suficiente o número de pessoal e o número de meios envolvidos?

Se tudo tivesse sido bem cordeando, o número de meios, assim como o número de pessoas, chegava. As coisas não foram bem organizadas de início, havia bombeiros a trabalhar arduamente para apagar os fogos enquanto que outros estavam sentados sem fazer nada. Tudo isto levou ao desequilíbrio do trabalho.

6. Afinal o que terá falhado para que tanta coisa tenha ardido?

No verão passado ocorreram temperaturas não vistas há muito tempo.

As temperaturas chegaram a atingir os 47ºC, o que não ajudou de modo algum ao combate dos fogos. Outro factor que influenciou a que tanta coisa tenha ardido foram os ventos. Sabe-se que os ventos fortes dificultaram os meios ao combate.

Outra grande preocupação foi o matagal que se encontrava bastante denso, o que leva o fogo a evoluir. Não houve cuidados neste aspecto e poderia ter-se evitado bastante.

O matagal agora está praticamente todo devastado, mas daqui a una anos estará de novo com iguais proporções e é mais fácil acontecerem os desastres que aconteceram no verão de 2003.

7. Quais terão sido as causas?

Não se sabe de nada. Não há certezas absolutas. Mas segundo alguém que contou, uma senhora diz ter visto dois homens a pôr fogo propositadamente.

Estes incêndios eram bastante esquisitos também, porque quando acabavam de um lado, ou seja, quando fazíamos o rescaldo de um lado já haviam 4 frentes de outro a tomar grandes proporções.

8. O que fazer, o que é que já foi feito em termos de prevenção?

Até agora os bombeiros não sabem de nada. Por exemplo os maiores acontecimentos este ano vão ser o Euro 2004 e o Rock in Rio, mas os bombeiros ainda não foram alertados sobre nada disso.

A única ajuda que foi pedida foi a prevenção de estrada, isto é, andar pelas estradas com a ambulância do INEM, para que possíveis acidentes devido à grande entrada de estrangeiros não sejam ignorados.

 A nível de incêndios, não preveniram os bombeiros acerca de nada e para além disso os meios não são suficientes, porque este ano só se gasta dinheiro no Euro 2004 e no Rock in Rio e não há grandes verbas a favor da prevenção aos fogos.

9. Considera os bombeiros convenientemente preparados e equipados?

Os bombeiros estão devidamente preparados para estas situações, o que falta é o equipamento. O equipamento para um só bombeiro é muito caro, por exemplo, um capacete custa por volta de 45 contos, as mangueiras cerca de 25 contos, um bombeiros devidamente equipado e com tudo o que necessita para a prevenção dos fogos com a devida segurança, fica por volta dos 330 contos.

Depois há ainda algumas entidades a quem os bombeiros de Proença-a-Nova prestam os seus serviços que não lhes pagam o que devem e com esta falta de equipamentos e falta de dinheiros, não pode haver uma boa preparação.

10. Acha que seria útil a profissionalização dos bombeiros? Será adequado o contributo de bombeiros muito jovens?

Devia haver uma maior profissionalização e ao mesmo tempo deveria haver grupos de voluntários visto que o voluntariado está a desaparecer e se este tipo de iniciativa não for incentivado com dinheiro, ninguém adere a ele. Por exemplo, anteriormente o voluntariado era algo que existia, mas agora, no verão, que é quando há sempre mais voluntários, os jovens preferem ir para as praias, preferem passar férias fora do país ou com os amigos e deixam de lado o voluntariado, mas se houvesse dinheiro suficiente para o manter, os jovens iriam aderir cada vez mais, o problema é que tal não acontece.

Tem de haver dois grupos: um grupo profissionalizado e um grupo de voluntários para o caso de uma emergência. Quando não estiverem uns, estão outros.

Mesmo que estes voluntários não estejam no combate aos fogos, são sempre uma ajuda porque podem levar aos bombeiros a água, a comida, o leite de que necessitam para se aguentarem bem no combate.

A escola de formação de bombeiros é em Sintra, mas o que acontece é que a formação que dão não é bem aproveitada.

No fim do ano passado, estavam cerca de 600 jovens no concelho, o que serviu de ajuda nos aspectos já antes mencionados.

11. O que pensa das consequências destes incêndios?

A única coisa que há a pensar é que a população ficou sem o bem mais precioso e que o ambiente e as paisagens estão mais pobres e tristes.