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Ano XII - Jornal N.º 25 - Dezembro de 2004 |
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Outros Temas TABORNAS DA MINHA INFÂNCIA Graças a Deus que há feriados. Nesses dias não é preciso acertar o passo pelo toque da campainha da escola e então temos tempo para preparar um pequeno-almoço caprichado e dar uns miminhos à família. Ora estava eu precisamente a fazer as torradas quando, de repente, senti um cheiro intenso a lagar que me catapultou para a minha aldeia natal na época em que eu andava na escola e ia comer tabornas ao lagar do Salsa. O pão centeio era torrado nas brasas da fornalha, mergulhado no azeite virgem especialmente guardado para a criançada e escorrido num alguidar de barro vidrado, já gasto pelo uso. Depois, o mestre tirava, do cimo da prateleira luzidia e tisnada pelo fumo, um cartucho de papel pardo às riscas vermelhas, polvilhava as tabornas com açúcar amarelo e distribuía-as por nós todos. E lembro-me de pensar, enquanto saboreava aquele manjar, se no céu haveria tabornas todos os dias ou só em épocas especiais. Pousei o olhar na torrada não de centeio, mas de pão branco refinado que estava no prato e, como que empurrada por uma força misteriosa, arrumei a manteiga no frigorífico, peguei na almotolia, encharquei o pão de azeite e polvilhei-o fartamente com açúcar. Nisto, ouvi uma voz atrás de mim: - Chegas a ser gulosa! Nem respondi. Sentei-me calmamente à mesa, saboreei a minha torradinha doce e pensei para comigo: afinal hoje é feriado e no céu devem de estar todos a comer tabornas". Há cheiros e sabores que se imprimem em nós e em nós perduram para o resto da vida. Olívia Cardoso |
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