Ano XII - Jornal N.º 25 - Dezembro de 2004

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Entrevista ao Pe. Armando Tavares

O Padre Armando Tavares é professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), mais vulgarmente conhecida por Moral, na Escola E.B. 2,3/S Pedro da Fonseca de Proença, sendo um dos professores mais antigos no corpo docente desta escola. Este facto proporcionou a seguinte entrevista:

Pe. Armando Tavares

Há quantos anos é professor nesta escola?
Eu sou professor há 31 anos, e comecei no ano de 1972/73 por dar aulas aqui em Proença no antigo colégio diocesano. Com o 25 de Abril, e como a escola foi ocupada pelos militares, fui obrigado a sair. Fui dois anos para Cernache do Bonjardim, e estive mais cinco anos em Vila Viçosa. Assim sendo estou aqui há 24 anos.

Já leccionou outras disciplinas para além de Moral?
Sim, já leccionei Português, História e Geografia de Portugal e Literatura Portuguesa, mas sempre em simultâneo com a disciplina de Moral.

Que comparação faz entre a juventude de antigamente e a juventude de agora?
Eu penso que, em geral, a juventude é a mesma, o ambiente que a rodeia é que é diferente, e isso leva a que tenham reacções e interesses diferentes. Os problemas são os mesmos, mas encarados de forma distinta. Vejamos, as perguntas que me eram colocadas há 30 anos por um aluno de 9º ano, por exemplo no campo da sexualidade, há 5 anos eram feitas por um aluno de 6º ano e agora já nem se fazem, já que é completamente impensável fazê-las no ambiente actual em que há muito mais diálogo e informação.

Acha que a escola tem condições boas para a aprendizagem, ou há algo que podia ser melhorado?
A escola tem boas condições base, tem bom material, bibliotecas bem equipadas, e tem professores efectivos competentes e dedicados, mas a insegurança do resto do corpo docente prejudica, em parte, a aprendizagem dos alunos. Penso que o maior problema é que o ensino em geral está um pouco empobrecido pela falta de exigência e de motivação, entre outros.

Sendo a EMRC uma disciplina de cariz católico, já teve alunos de outras religiões? Como foi essa experiência?
Em Vila Viçosa, tive um aluno que se dizia Testemunha de Jeová, com o qual a relação foi fácil, já que as suas perguntas e até uma certa contestação deram interesse e até facilitaram o trabalho. Esse aluno podia ser até o modelo, porque dizia que era preferível aprender a ficar sem fazer nada, ao contrário de alguns católicos que por puro comodismo não se inscrevem na disciplina. O ano passado, aqui em Proença tive dois alunos romenos, ortodoxos, mas devido às dificuldades linguísticas não deu sequer para me aperceber de grandes diferenças. As aulas de Moral, sendo de formação geral e humana, poderão e deverão ser frequentadas por qualquer aluno, independentemente da sua confissão religiosa, não são aulas de catequese.

Como vê, mais especificamente, a disciplina de EMRC?
Uma formação de pessoa, uma transmissão de valores universais e também de cultura religiosa, até porque se estudam as outras religiões.

Acha que a disciplina de EMRC devia ser obrigatória?
NÃO, o que deveria haver era uma disciplina alternativa para os outros, devido à liberdade religiosa, sobre a história das religiões e a formação das pessoas, em que a nota final contribuísse para a média final do aluno, e respectiva transição de ano ou não.

Há alguns alunos que dizem que já que Moral não conta para a média, não vale a pena esforçarem-se e fazerem os trabalhos da disciplina. Quer comentar esta situação?
Há um contra-senso na lei quando obrigam o professor a avaliar, sem essa avaliação contar para a média/transição do aluno. Isso enfraquece a capacidade de exigência do professor e o aproveitamento dos alunos. No entanto, isto também é bom porque pode permitir que alguns alunos vejam a disciplina mais num sentido de formação pessoal em vez de a verem como uma obrigação.