Ano XII - Jornal N.º 22 - Junho de 2003

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A praia do anjo

- Estou farta de vocês, farta, odeio-vos.- diz Clara saindo a correr de casa. Era sempre assim, nunca estavam de acordo, o pai dizia uma coisa e a mãe, outra.

Os passos de Clara, que no início não tinham destino, levaram-na à Praia do Anjo. Era uma praia particularmente bonita, tinha água transparente, areia fina e umas rochas imponentes com formas lindas que faziam esconderijos entre elas. Clara sentou-se numa rocha a observa o mar, a pensar nos seus problemas. Tinha receio que os seus pais se divorciassem.

Estava ela completamente distante, quando começou a sentir uns salpicos na cara. Ela olha para cima para ver se está a chover, mas o céu está completamente azul e o Sol está radiante. Sente outra vez mais salpicos, vindos de baixo e encontra um golfinho. Era lindo, pele cinzenta muito lisa, tinha um ar majestoso, muito elegante, como só um golfinho tem.

Parece que está a convidá-la para ir mergulhar com ele, como se soubesse o que se está a passar com ela e a quisesse distrair. Ela deixa-se ir e, fica lá horas e horas. Quando dá por ela, já quase que escureceu, despede-se do golfinho e vai para casa. Agora todos os dias vai nadar com ele, até escurecer.

Um dia, ela chega à praia e, não encontrando o golfinho, senta-se na areia, à espera que ele apareça. De repente, ouve umas gargalhadas do outro lado da praia que está separada por umas rochas enormes. Ela atravessa para o outro lado e encontra um rapaz a brincar com o golfinho. Clara fica perplexa no meio da praia olhar para eles. Parece que são um só ser, entendem-se, como se fossem da mesma espécie.

Alguns minutos depois, o rapaz apercebe-se que ela está na praia e vai ter com ela.

- Olá, reparei que me estavas a observar e ao golfinho e resolvi vir falar contigo. A propósito, eu sou o Afonso.

- Eu sou a Clara. Eu costumo vir para aqui todos os dias nadar com o golfinho e nunca te tinha visto aqui. Como é que descobriste esta praia?

- Eu sou novo na cidade, e vim passear porque ainda não tenho amigos. Depois vim aqui parar e descobri o golfinho.

A Clara e o Afonso tornaram-se grandes amigos e confidentes um do outro, mas um dia a “bomba” rebentou em casa da Clara. Os pais dela iam separar-se. O Afonso tranquilizou-a, dizendo-lhe os aspectos positivos daquela nova fase da sua vida. Ela, por fim, acalmou-se e foram os dois nadar com o golfinho.

Passadas algumas semanas, a Clara já estava com a vida resolvida. O pai tinha comprado uma casa nova em que ela passava os fins-de-semana, e aos dias de semana ela ficava em casa da mãe. Ficou decidido que alguns dias durante as férias ficava em casa do pai.

Quando foi à praia para contar as novidades ao Afonso, não o encontrou e ficou à espera dele até ficar escuro. Foi para casa um bocado triste.

No dia seguinte, ele não voltou a aparecer até que ela descobriu um bilhete dele ao pé de uma rocha preso com uma concha e um objecto estranho em forma de asas.

“Querida Clara, desculpa ter ido embora sem ter dito nada, mas a minha missão já está cumprida. Gostei muito de te conhecer, foste uma verdadeira amiga para mim. Continua a nadar com o golfinho lembrando-te de mim. E nunca te esqueças que a vida é como uma pista de obstáculos, uns mais fáceis outros mais difíceis, mas é preciso saber ultrapassá-los todos para conseguir chegar ao fim e vencer. Nunca te esqueças deste teu amigo angelical. Já agora, deixo-te esse amuleto para te ajudar a ultrapassar as horas mais difíceis, é também um objecto que te ajuda a perceber melhor quem eu sou. Muitos beijinhos e abraços do Afonso”

Clara nem queria acreditar que o Afonso com quem ela conversou, nadou, riu e brincou, era nada mais nada menos que um Anjo, um verdadeiro Anjo. Clara nem reparou no facto de estar numa praia chamada Praia do Anjo, mas sempre que pode vai à praia e pensa sempre nas últimas palavras de Afonso “a vida é como uma pista de obstáculos, uns mais fáceis outros mais difíceis, mas é preciso saber ultrapassá-los todos para conseguir chegar ao fim e vencer.” “Vou lembrar-me destas palavras eternamente”- pensa Clara para si própria enquanto aperta com força, junto ao coração aquele estranho objecto em forma de asas.

Ana Cardoso, n.º 2 - 9º A

1º Prémio, Prosa, Escalão B