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Não tenho tempo...
No casal ventoso pintei um muro
De cores garridas em fundo branco.
Nesse dia houve menos seringas a
penetrar os corpos...
Houve mais palavras e vidas a tocarem-se...
Com o Carlos fiz um passeio de bicicleta
E levei-o a ver o mar...
À noite a bebedeira do pai
E a gritaria em casa
Não o puseram a chorar...
No jardim da Parada conversei com
uma velhinha
Que cheia de sacos de memórias
Apanhava uns raios de sol...
Vi suas fotografias
Ouvi-lhe a história de seus filhos
E juntas fomos lanchar...
Tratei-a com respeito e carinho
E ela já não se
lembrava que a tivessem tratado assim...
Trabalhou a vida inteira
E tem este triste fim...
Passeando pelas ruas
Com os sacos das memórias...
Os filhos têm casas pequenas
Não têm dinheiro para
o lar...
Para ela ninguém tem tempo
Ninguém sabe onde ela anda...
No bairro da Fraternidade
Tapei os buracos de uma barraca
Cobri a terra com mosaicos
E montei as divisórias
Para simular quartos...
No tecto das crianças
Pintei um sol e borboletas
E aprendi jogos e brincadeiras
Dos meninos que crescem na rua...
O meu tempo dou-o todo
Mas, infelizmente, não chega
para todos...
Dina Tavares, n.º 12 - 7.º
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