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Ano XI - Jornal N.º 21 - Dezembro de 2002 |
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Outros Temas Uma História do Serão
- Então que vamos fazer para chegar ao queijo? - Eu proponho que bebamos a água primeiro. disse a raposa. - Vamos a isso, comadre! retorquiu o lobo, esfregando as patas e a pensar na sua parte do petisco. E começaram a beber. Enquanto o lobo sorvia água com toda a sua força, a raposa olhava-o de esguelha, fingindo que bebia. Daí a momentos, o lobo parou a observar a raposa e disse: - Isso vai ou não vai, comadre? - Vai, vai... respondeu ela, bebendo algumas gotas. Mas continue, compadre! Se não, vem o dia e perdemos o nosso rico manjar. O lobo continuou a beber como um doido. Minutos mais tarde, começando a sentir o cansaço, tornou a perguntar: - Isso vai ou não? - Vai pois! respondeu a comadre a meia voz. - Ainda falta muito? - Está quase no meio, compadre. Continue, continue!... Foi-se passando assim o tempo, até que o lobo sentindo-se pesado e reboludo a mostrar algum desânimo, disse: - Parece que isto nunca mais acaba! Ainda falta muito para chegar ao queijo, comadre? - Já falta pouco, tanto como uma pata. Aguente, compadre, que aqui está a nossa rica ceia! Olhe que eu não desisto. Neste momento, a minha mãe interrompeu, às gargalhadas: - Tal estava ela, a marota da raposa a intrujar assim o pobre do lobo! E nós ríamos também. O meu pai, satisfeito com o nosso riso, continuou. O lobo voltou à carga com um grande esforço e começava a tremer das pernas. Soltou um traque que chamou a atenção da raposa a qual, para levar o trabalho até ao fim, arranjou logo ali uma rolha de cortiça que meteu no rabo do lobo, incitando-o a beber mais um pouco e que o seu esforço seria bem compensado. Quando parecia que o queijo estava quase a ser alcançado, o lobo disse que já não podia mais e pediu à comadre que o ajudasse a sair dali. Andou alguns passos com dificuldade, enquanto a raposa, sempre ligeira, fazia que o ajudava lembrando-lhe a sua força e bravura. Levado por tais elogios e com a friura da noite, o lobo deu um enorme espirro que fez saltar a rolha do rabo. Foi tal a enxurrada pelo vale abaixo que levou terras e paredes que as defendiam. E todos ficávamos a rir a bandeiras despregadas. - E o queijo? perguntei inocentemente. - Esse ainda lá está, porque o lobo e a raposa apanharam tal susto com a enxurrada que desataram a correr pela encosta acima sem se verem mais. concluiu o meu pai. E naquela noite, com certeza, o sono foi mais tranquilo. Prof. F. Lopes |
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