Ano XI - Jornal N.º 21 - Dezembro de 2002

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Outros Temas

Uma História do Serão

Quando eu era pequeno (década de 50), na casa de meus pais, ao serão, entre outros passatempos, contavam-se histórias para animar e fazer rir.

Em certa noite de boa disposição, o meu pai começou a história da raposa matreira (que a minha mãe também ouvira em miúda – 2ª. década do séc. XX – como hoje confirma).

Numa noite de lua cheia, em Janeiro, andava a raposa com fome quando, ao passar num certo vale onde havia uma poça de água (que o dono utilizava para aguar a horta, no Verão), viu dentro dela uma coisa redonda e branca que lhe pareceu um queijo. Logo cresceu água na boca da raposa que, sentada na borda da poça, ficou a matutar em como havia de alcançá-lo. Como não se sentisse capaz de tirar sozinha o apetitoso queijo do fundo da água, resolveu pedir ajuda ao compadre lobo com quem, segundo se dizia, não andava de boas relações. À primeira, o lobo deu várias escusas, mas acabou por aceitar dar-lhe uma ajudinha, depois da promessa da raposa de dividir o queijo por ambos.

Chegados ao local e vendo que a comadre não o enganava, perguntou o lobo:

- Então que vamos fazer para chegar ao queijo?

- Eu proponho que bebamos a água primeiro. – disse a raposa.

- Vamos a isso, comadre! – retorquiu o lobo, esfregando as patas e a pensar na sua parte do petisco.

E começaram a beber.

Enquanto o lobo sorvia água com toda a sua força, a raposa olhava-o de esguelha, fingindo que bebia. Daí a momentos, o lobo parou a observar a raposa e disse:

- Isso vai ou não vai, comadre?

- Vai, vai... – respondeu ela, bebendo algumas gotas. – Mas continue, compadre! Se não, vem o dia e perdemos o nosso rico manjar.

O lobo continuou a beber como um doido. Minutos mais tarde, começando a sentir o cansaço, tornou a perguntar:

- Isso vai ou não?

- Vai pois! – respondeu a comadre a meia voz.

- Ainda falta muito?

- Está quase no meio, compadre. Continue, continue!...

Foi-se passando assim o tempo, até que o lobo sentindo-se pesado e reboludo a mostrar algum desânimo, disse:

- Parece que isto nunca mais acaba! Ainda falta muito para chegar ao queijo, comadre?

- Já falta pouco, tanto como uma pata. Aguente, compadre, que aqui está a nossa rica ceia! Olhe que eu não desisto.

Neste momento, a minha mãe interrompeu, às gargalhadas:

- Tal estava ela, a marota da raposa a intrujar assim o pobre do lobo!

E nós ríamos também. O meu pai, satisfeito com o nosso riso, continuou.

O lobo voltou à carga com um grande esforço e começava a tremer das pernas. Soltou um traque que chamou a atenção da raposa a qual, para levar o trabalho até ao fim, arranjou logo ali uma rolha de cortiça que meteu no rabo do lobo, incitando-o a beber mais um pouco e que o seu esforço seria bem compensado.

Quando parecia que o queijo estava quase a ser alcançado, o lobo disse que já não podia mais e pediu à comadre que o ajudasse a sair dali. Andou alguns passos com dificuldade, enquanto a raposa, sempre ligeira, fazia que o ajudava lembrando-lhe a sua força e bravura. Levado por tais elogios e com a friura da noite, o lobo deu um enorme espirro que fez saltar a rolha do rabo. Foi tal a enxurrada pelo vale abaixo que levou terras e paredes que as defendiam.

E todos ficávamos a rir a bandeiras despregadas.

- E o queijo? – perguntei inocentemente.

- Esse ainda lá está, porque o lobo e a raposa apanharam tal susto com a enxurrada que desataram a correr pela encosta acima sem se verem mais. – concluiu o meu pai.

E naquela noite, com certeza, o sono foi mais tranquilo.

Prof. F. Lopes