Ano XI - Jornal N.º 21 - Dezembro de 2002

Edição ON LINE








Editorial

A LEI DO MENOR ESFORÇO

De tanto ouvirmos falar que os avanços tecnológicos e todo o tipo de invenções são uma consequência directa desta atitude do homem face às tarefas a desempenhar, a de suprir, com inteligência, as próprias limitações de ordem física, aumentando sempre os níveis de produtividade mesmo baixando os níveis de esforço, estamos a tormarmo-nos cada vez mais preguiçosos.

E já não temos quem nos avise de que a preguiça é a mãe de todos os vícios... E ainda que fôssemos à Missa! Já nem os padres se atrevem a contrariar-nos a tendência!

Nós queremos é “curtir”! – Dizem os novos. É uma ciência não fazer nada! – Dizem os velhos. O que parece é que já nascemos cansados: os operários querem “mais dinheiro e menos horas”; os funcionários querem “emprego e não trabalho” e vão tendo cada vez mais o inverso; os estudantes não querem “ondas”, os professores “ruído”. Em Portugal, “país da tanga” ninguém aceita “cargas de esforço”, nem mesmo os atletas! Agora, que os nossos governantes se preparam para nos “vender” novos níveis de produtividade, à custa da flexibilização das leis laborais, nós, os desiludidos da demagogia política, já quase admitimos clamar pelo “António”: nos limite a tendência criativa para o facilitismo; nos devolva as “basezinhas” do Bêabá”; nos imponha o “recolher obrigatório” no período laboral; nos “industrie” na abstinência no período lectivo semanal!

O facilitismo foi uma ideia que os políticos nos começaram a vender desde o “cavaquismo”, pelas vias travessas, quando nos fizeram a apologia do triunfo a qualquer preço, valorizando excessivamente os vencedores, esquecendo-se que por cada vencedor há “exércitos” de outros que nem sequer têm acesso à competição e que nos merecem consideração e que, quanto mais se valoriza o triunfador, mais se desmobiliza o perdedor, acentuando-lhe o estigma de falhado. E atiraram-nos ostentatoriamente com os yuppies à “pantalha nossa de cada dia”, fazendo-nos sentir, a nós, a “gente normal” uns falhados irremovíveis. Depois foi o “guterrismo” que frustrou, pela segunda vez (a primeira havia sido no “pós 25”), as nossas expectativas ingénuas de “igualdade e fraternidade”, embalando em ondas cor de rosa o nosso modo gingão de dobrar bojadores e fazendo-nos esquecer que os alcatruzes da nora tanto riem como logo choram...

Isto é apenas um desabafo, meus jovens, apenas o eco de tantos outros que nos tendes aturado e que de pouco mais valem do que recordar-nos de que estamos cada vez mais “velhos e átonos”. As novas tecnologias salvar-nos-ão, as máquinas trabalharão para nós, manobradas por emigrantes! E, mesmo que os recursos naturais continuem a exaurir-se, inventar-se-ão energias alternativas e organismos transgénicos substitutivos.

O mundo não vai acabar! Elevemos os nossos níveis de confiança! Veremos melhorar os nossos índices de produtividade, começar a melhorar a nossa posição no ranking da iliteracia! Fruamos todos dos bens da Democracia! Olá! Hou!!!

Estamos apenas a relembrar o Natal! Já nem sequer o celebramos porque já não temos os ingredientes precisos: espírito de família, fraternidade, desprendimento, simplicidade, ilusão... Mas temos tudo! É a nós, aqui e agora, em que este governo, que teve entradas tão carregadas de snobismo e pedantismo, já começou a “bater baixo a bolinha”, mais baixo, infelizmente, que a nossa própria auto-estima, infiados até os “chernes” pela poluição dos “prestige”, é a nós, a quem incumbiram de levar por diante este projecto do Palmatória, que cumpre provar (e acabaram-se os sarcasmos!) que ainda há estudantes suficientes em Proença para tentar contagiar todos pela Magia da Palavra, carregada de actualidade corrosiva ou contagiante sensibilidade poética. E nem sequer será preciso que Deus se faça outra vez Menino, sujeito a ser abusado antes da Cruz!...