Ano XI - Jornal N.º 21 - Dezembro de 2002

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Desporto

Um golo cravado no peito do inimigo

Ascensão? Sim, embora seja uma palavra santificada, resume esse caminho de glória e santidade que a equipa de futebol de Proença-a-Nova, composta por professores do mesmo concelho, trilha com suor (muito), sangue (algum, principalmente nas canelas) e lágrimas (por enquanto, nenhumas), no FuteProf 2002, constituído pelas equipas da Sertã, Oleiros, Castanheira de Pêra, Ansião, Alvaiázere e Meirinhas.

Proença já havia empatado em casa com a Sertã por 3-3 (a 12 de Novembro), num jogo de dimensões trágicas já que, contra todas as expectativas, incluindo as nossas, ganhávamos por 3-2 a um minuto do final e, num golpe fatal do destino, os forasteiros empataram, injustamente. Esse empate, repito um empate contra a putativa melhor equipa do campeonato e sem que alguma vez tivessem os jogadores de Proença jogado juntos, devia figurar, merecidamente, numa antologia.

Na deslocação de dia 19 de Novembro, a Oleiros, muito mais do que um mero jogo de futebol seguido de saudável convívio (vulgo jantar de confraternização) estava em jogo. O que contra a Sertã tinha sido uma inglória morte na praia seria, no interior profundo do Pinhal, uma vitoriosa cavalgada heróica. Puro engano! A vitória (0-1) foi tirada a ferros das profundezas dos heróis que, em campo, esgotaram, até à exaustão, a força que os movia e a persistência face à adversidade.

A arbitragem normal e honesta confere às partidas um profundo tédio, uma mediocridade irremediável. Só o árbitro gatuno dá ao futebol uma nova dimensão, se me é permitido dizê-lo, shakesperiana. Eis a verdade: o juiz larápio revolve, na equipa prejudicada e respectivos apoiantes, esse fundo de crueldade, de loucura, de ódio que existe, adormecido, no mais íntegro dos seres. E, nos dois jogos, justiça seja feita: os árbitros foram bandidos memoráveis e empolgantes.

De qualquer forma, bem vistas as coisas, foi bom que Proença tivesse sido roubada da forma mais cínica. A humilhação tem destas coisas. Rui Costa, o próprio, na marcação de um livre directo, sentiu na carne e na alma a humilhação sofrida no jogo com a Sertã, em que começámos a perder com um penálti inventado no primeiro minuto, tomou a dor colectiva da equipa e, então, cravou, até ao cabo, no peito de Oleiros, o golo da nossa mais do que merecida vitória. Já nos sentimos uns verdadeiros campeões!

Um aviso à navegação: o texto pretende ser tão só, à maneira de alguma da música de W.A. Mozart, um mero divertimento.

Luís Simões