Ano XI - Jornal N.º 21 - Dezembro de 2002

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Actualidades

Ruminando... ao serão

Está quase a findar esta Sexta-Feira e este Novembro chuvoso.

São horas de muitos, cansados da fadiga da semana, procurem em “vale de lençóis” um pouco de repouso. Outros, também cansados não sei bem de que vazio, encaminham-se para um qualquer lugar de “diversão” nocturna onde, ao ritmo de um monótono mas estridente som de batuque, auxiliados com umas boas “ganzas”, mergulharão numas horas na ilusão... Afinal amanhã até é Sábado e poder-se-á “curtir uma de cama”. Depois virá o Domingo a quem já alguém chamou “o dia do pijama”!...

Também eu pensava recolher-me aos braços de Morfeu quando me lembrei do repto do professor Gil: “Ó pá, não queres escrever umas coisas para A Palmatória? Pensa nisso!”.

Talvez porque a noite convide mais à reflexão, cá estou eu, sentado diante do portátil, tentando escrever. “Escrever umas coisas...”. Mas, que coisas? E dou comigo a pensar nesta semana... Que de sensações!... Que riqueza e variedade de contactos e de afazeres.

Aquele Domingo passado, tão cheio de celebrações e de um cansaço feliz... Aquela hora inteira a ouvir quem pede ajuda para a renda da casa mas que, mais do que de dinheiro ou trabalho, precisa de carinho e de escuta. A outra que conta da sua miséria moral... A mãe que, em lágrimas, fala da filha adolescente temendo que venha a enveredar por caminhos que ela própria trilhou bebendo até ao âmago o cálice da amargura... Aquele aluno “na oposição” mas que, pelo canto do olho, espreita o que dizemos... Aquele trabalho... E aquele... Aquela preocupação... Aquela reunião que me espera amanhã sem eu saber bem como “descalçar a bota” que me enfiaram.

Mas para quê falar disso? Tudo é pouco relevante neste mundo em que cada um carrega o fardo do seu eu e dos seus problemas. Cada um tem quanto lhe basta e partilhar preocupações é para os fracos!

Falemos da semana que agora acaba.

Quando estas linhas forem lidas ainda alguém se lembrará do petroleiro Prestige e de toda a porcaria que lançou nas costas da Galiza? E aquele jogo do empurra da França para Espanha e de Espanha para Portugal? Afinal afundou-se ou não em águas portuguesas? Se fosse para poder pescar seriam certamente espanholas mas para assumir responsabilidades... Uma vergonha simplesmente. Onde está a Europa solidária e unida contra as catástrofes?

Já esta notícia estava a ser desinteressante e surge outro “enche páginas”: o escândalo da pedofilia na Casa Pia de Lisboa. E com que gana todos os meios de comunicação a agarram, virando-a e revirando-a por todos os lados, num afã malsão de escândalo e curiosidade. Que vergonha, meu Deus!

E, se o meu coração de educador sangra, a minha raiva impotente de cidadão volta-se para as sucessivas autoridades deste país, atadas pelos laços da cobardia.

Depois de amanhã, dia 1 de Dezembro, é o dia de luta contra a SIDA. Antes de me sentar a escrever, estive a ver uma reportagem do canal 1 da RTP - neste caso um óptimo sinal de serviço público - sobre aquele flagelo do nosso tempo. Havia uma pequena reportagem da zona do Intendente em Lisboa, uma das mais propícias para o seu alastramento devido à confluência de pessoas de diversas raças e à prática frequente da prostituição e à toxicodependência. Fazia-se seguidamente a relação entre ambientes como o do Intendente e o aparecimento de um novo vírus de HIV, exclusivo de Portugal. Foram entrevistados pelo menos dois cientistas que descobriram esse vírus que disseram que não dispunham de verbas para continuar a investigação no sentido da descoberta de medicamentos adequados e de uma hipotética vacina. Já há quatro anos que a verba destinada à investigação não sofre qualquer aumento.

Isto é de loucos! Neste país não há dinheiro para investigação científica nomeadamente no combate a doenças que matam, até porque estamos a atravessar uma crise económica que começa a afectar muitas famílias. Entretanto, gastam-se somas astronómicas em estádios de futebol e em contratos com treinadores para a selecção nacional e para clubes carregados de dívidas ao fisco.

Confesso a minha ignorância: não sou capaz de compreender isto!

E depois admiram-se da bagunça que por aí vai.

Os “especialistas” em educação gritam contra o abandono escolar, a indisciplina e a falta de interesse pela escola e, propõem voltar a uma educação por valores. Agora até nos mandam leccionar uma disciplina chamada Formação Cívica que, por inerência ao cargo de Director de Turma, me calhou também a mim.

Mas que tenho eu feito senão isso ao longo destes quase trinta anos em que dou aulas de EMRC (Educação Moral e Religiosa Católica)? Há, no entanto, alguns desses senhores que, vergados ao lobi de certos partidecos de esquerda que têm mais garganta que representatividade, tudo estão a fazer para acabar com as aulas de Educação Moral na escola sob o pretexto de um Estado Laico. Quererão converter agora o Laicismo numa nova religião e sujeitar-nos à sua ditadura?

Santo Deus, quem poderá compreender isto?

Mas, tudo isto veio a talho de foice por causa das notícias da semana.

Quem se poderá sentir seguro perante o atentado terrorista perpetrado no Quénia contra aquele grupo de turistas israelitas? Como pode o ódio ter tanta força?

Entretanto, e apesar da crise, as nossas ruas enchem-se de luz e a publicidade natalícia há muito começou, agressiva, embora só no próximo Domingo, dia 1, comece o Advento, tempo litúrgico de preparação para o Natal...

Natal! Natal! Natal!

Os comerciantes aproveitam a oportunidade.

Empurrados pelo bem parecer, endividar-nos-emos ainda mais, comprando e oferecendo prendas cheias de inutilidade.

Aproveitaremos para comer bem e encher ainda mais o estômago.

As nossas crianças, mimadas em demasia, ficarão ainda mais caprichosas e egocêntricas e melhor preparadas para serem o “homo consumitor” de amanhã.

Teremos até uns gestos de solidariedade com os mais pobres e calaremos assim a consciência pesada por um ano de indiferença e de falta de respeito consumista pelos mais desprotegidos.

Diz-nos a História que o Natal começou a ser celebrado, em princípios do Séc. V, em substituição de uma festa pagã em louvor do nascimento do sol por uma festa cristã em louvor do Nascimento de Jesus Cristo, Sol do Mundo. A repaganização da festa de Natal é mais um sinal do retrocesso ideológico e do vazio moral do homem de hoje.

Natal! Natal! Natal!...

Pus-me a escrever e o ontem já é hoje.

Ao reler, fiquei com um sabor triste e amargo na boca.

Não quero, no entanto, ir deitar-me sem te dizer, caro leitor, que não sou um homem amargurado: Sou um homem preocupado mas profundamente sereno e cheio de esperança. A fé é o esteio da minha vida. Sim, esse “menino que nos foi dado” é o Emanuel, o Deus conosco. Só nEle, o Homem Perfeito, ganha sentido o próprio homem e a sua vida. Ele venceu a morte e está conosco em certeza de Natal perpétuo.

Queres vê-lO? Olha para dentro de ti e escuta o Seu sussurro de amor. Olha à tua volta e descobre-O em cada irmão: “O que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt.25, 40).

Sim, com Ele, contigo e comigo, este Mundo é melhor e o Natal é todos os dias.

Um SANTO NATAL para ti que tiveste paciência para me ouvir!

Padre Armando - 30/11/02