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Ano XI - Jornal N.º 21 - Dezembro de 2002 |
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Actualidades Maré Negra Os jornalistas, costuma dizer-se, preferem notícias trágicas, negativas, apelativas. Pelo menos é o que parece quando se lêem jornais ou se ouvem notícias. Ultimamente temas não têm faltado. A começar pela maré negra, que ainda não chegou à nossa costa, mas cujas consequências serão inevitavelmente globais. Continuando pelo ainda mais negro caso da existência de uma alegada rede pedófila que recrutava crianças na Casa Pia. Por mais necessária que se torne a reflexão sobre a abordagem do caso, o conteúdo de determinados telejornais e o esquecimento das mais elementares regras deontológicas dos jornalistas, aqui a discussão impõe-se ainda mais vasta. Penaliza políticos, Ministério Público, Polícia Judiciária e um sem número de personalidades que responderão, directa ou indirectamente, pelo arrastamento do processo ao longo de mais de duas décadas. Quase tão graves como os contornos da história que, julgo eu, em breve começarão a cair no esquecimento e eventualmente até na impunidade são as consequências do ponto de vista da imagem que transmitem das instituições políticas e judiciais. O cidadão comum sente que não pode confiar em nenhuma delas e cresce a sensação de que os políticos, os juízes, os diplomatas e mais seja quem for envolvido são todos iguais. Por outro lado, as notícias negras e medidas consideradas negativas anunciadas pelo Governo, como o Código Laboral, fazem crescer o sentimento de pessimismo que se instala gradualmente na sociedade portuguesa. Começou imediatamente após as eleições, com a radicalização do discurso social-democrata em relação ao momento económico do país. E essa tem-se mantido como a preocupação maior de quem nos governa. Ninguém saberá bem explicar porquê, mas não haverá um português que não tenha já compreendido que o desígnio nacional é só um: combater um papão chamado défice. Um amigo meu que esteve durante três anos a viver em São Paulo e regressou em Janeiro costuma dizer que, no regresso, a sua pior surpresa foi o negativismo e tristeza instalados em todos os poros da sociedade. No Brasil a situação é ainda mais complexa, mas as pessoas vivem com muito mais alegria, costuma comentar. Esse será, porventura, o maior desafio: não deixar que a maré negra de acontecimentos naturais ou provocados seja pelo Governo, seja por redes organizadas, seja por quem for -, nos retirem a esperança. O que equivale a dizer a capacidade de intervenção e acção que permitam, em cada momento, acreditar que um futuro melhor é mesmo possível e é tarefa de todos. Inês Cardoso |
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